.Tempestade.

“Às vezes a vida me tira o brilho, feito lixa grossa que vai corroendo a madeira até ela esquecer como era o seu jeito liso de antes. E dói. Incomoda. Machuca. Passa-se o dedo sobre os vincos em busca da fina camada de antes, mas tudo agora é areia e pó. Eu não sei o que a vida quer de mim. Eu não reconheço essa nova camada. E então eu fico olhando pra ela em busca de uma resposta dourada. Mas ela não vem. Nem em verniz. Nem em uma verdade fosca. Fica só o som insistente da lixa roendo, roendo e roendo. Sem pressa. Aos pedaços. Sorrateira. Será que desilusão também dói assim na madeira? Será que nela também magoa? A minha tristeza hoje transborda pela casa feito essa chuva que eu ouço pela janela. Dói o pingo também. Magoa a calha. Então por longos minutos eu perco um pouco a esperança e rejeito como meia molhada essa coisa da vida de me obrigar a aceitar uma nova mudança. E receio a tempestade antes mesmo dela aparecer pra mim como bonança.”